Sobre a opereta “Ramom e Maraó”






 
















A opereta infanto-juvenil “Ramom e Maraó” narra uma história de amor entre Ramom e Maraó, meninos com idade aproximada de onze anos. Foi escrita para duas peças de piano de Robert Schumann, Kinderszenen, op.15 e Arabeske, op.18.
Na montagem produzida pela Palavra Cantada, em 2008, o espetáculo contava com um pianista, um violonista, um coro de oito vozes, um casal de atores, além de dois bonecos (seis manipuladores) representando os dois personagens principais. Abaixo, transcrevo esta versão, excluindo apenas os ricos efeitos de luzes que o vídeo-cenário proporcionava. É claro que são possíveis inúmeras versões, inclusive com atores no lugar de bonecos ou, ao contrário, com todos os personagens bonecos.
As canções da opereta, que são interpretadas ora por Paulo Tatit, ora por Sandra Peres, ora ainda pelo coro, poderão ser ouvidas durante a leitura.

Personagens

O boneco Ramom.
A boneca Maraó.
O narrador ancião.
A mulher anciã do narrador.
A mãe de Maraó.
Os moleques.
O coro.

Características das personagens

Ramom e Maraó: meninos pré-adolescentes. Na versão de 2008, suas vozes foram interpretadas por Paulo Tatit e Sandra Peres.
O casal de terceira idade: a história é narrada apenas pelo homem; a mulher, que deve ser uma boa bailarina, o acompanha em todas as cenas reagindo e comentando a narração do marido com gestos, danças, olhares e sorrisos.
O coro: narra momentos da peça através de canções, e assume também os papeis dos moleques, da mãe de Maraó e de Ramom e Maraó adultos.

Cenário e figurinos

Basicamente, o cenário é formado por um piano de caldas sobre uma plataforma que se movimenta pelo palco, sugerindo diversas configurações (cabana, muro, ponto de encontro), conforme a necessidade da história. Portanto, o palco é vazio, com o objetivo de não figurar tempo e espaço. Mais importante que objetos datados é a presença da luz, que deve criar ambientes mágicos. Na montagem de 2008, o espetáculo contava com projeções de vídeos coloridos na tela de fundo do palco e numa tela rosco, que ajudaram a criar a atmosfera pretendida. Dois bancos de jardim se posicionam nas laterais do palco, levemente voltados para o interior (não para a plateia), para uso dos narradores nos momentos musicais.
O coro e os músicos vestem figurinos neutros, com exceção dos momentos em que algum componente assume uma personagem, quando então deverá se apresentar a contendo. Ramom se veste como moleque, Maraó como menina vaidosa (sem excessos). O casal de narradores usa um costume padrão.


 Ramom e Maraó


Vou contar pra vocês uma história que eu não sei nem onde nem quando se passou. Mas é isso não nos interessa. Pergunto a vocês: em que século se deu “As mil e uma noites”? E “Pinóquio”? Ou então: onde fica a Terra do Nunca, de “Peter Pan”? Não sabemos e nem precisamos saber, porque esses enredos são universais, pertencem a todos os povos, a todas as gerações e, portanto, pouco importa identificar exatamente a data e o local do enredoaquilo que as grandes fábulas nos falam e nos ensinam, qualquer pessoa de qualquer época pode entender. A história que eu quero contar não é tão grande assim, é até pequena, singela, comum, dessas que poderiam se passar na nossa rua, em qualquer cidade, aqui no Brasil, ou na África, ou Europa, tanto faz. sei que poderia ter acontecido comigo ou com qualquer um de vocês.
(A mulher aparece sentada no banco lateral, à esquerda.)
Tem mais uma coisa que eu quero comentar com vocês, antes de mais nada...  Este caso ocorreu de verdade, o que vocês verão de agora em diante, neste palco, é tão real como toda a nossa fabulosa realidade, ainda que a minha verdade não seja a mesma de outros que também conhecem a históriacomo ela, por exemplo (aponta para a mulher, que sorri). Portanto, repito mais uma vez, é importante que, desde , tenhamos em mente que aquilo que eu vou relatar de fato existiu, tanto quanto vocês e nós existimos nesse teatro... – as versões de cada um é que são um pouco diferentes...
(Narração um tanto imponente.) Então, muito bem, muito bom: aqui começa a história dos meninos Ramom e Maraó. (O coro aparece desde o fundo do palco e se posiciona à frente.) Vamos ouvir o que diz o coro: (O narrador se senta ao lado da mulher.)

Tema de Ramom e Maraó (canta o coro)

Ramom e Maraó
Ramom e Maraó
Apenas uma história de amor. (bis)

Ninguém sabe ao certo
No que deu o amor e a sorte de

Ramom e Maraó
Ramom e Maraó
Apenas uma história de amor.

Ninguém sabe ao certo
No que deu o amor e a sorte de

Ramom e Maraó
Ramom e Maraó
Apenas uma história de amor.

(Narrador perto do público.)Apenas uma história de amor...” talvez fosse melhor dizer: apenas outra história de amor, que as histórias de amor são tão semelhantes... (Mulher sutilmente balança a cabeça, sorrindo e discordando) É, minha gente, para quem não sabe, o amor é um bichinho de asas que pousa e que pica... e logo pinica... não, não, melhor seria dizer, o amor é uma brisa fresquinha que aos pouquinhos aumenta, aumenta, vira um furacão e então... não, isto não! O amor é uma flecha que fura o nosso coração mas a gente não sente, não dói... às vezes... não, não e não! vamos imaginar... uma sombra que chega quietinha e gruda no nosso corpo, e de repente cresce, cresce... e nos assombra! Então você se pergunta: por que aconteceu comigo, por que jus-ta-mente comigo? É, o amor pegou o menino Ramom e a menina Maraó.
Não sei exatamente a idade que eles tinham, sei apenas que Maraó era um pouquinho maior que Ramom, uma menina magrinha, bonitinha, com os cabelos compridos, lisos, que ela ficava escovando assim toda a hora. Ramom era bochechudo, rechonchudo, um lindinho meio feioso (a mulher ri, novamente balança a cabeça, discordando), um tanto desengonçado e estava sempre com os cabelos desalinhados. (Mudando o tom, confidencial com o público.) (Ela acha que não, que Ramom era uma gracinha, me falou mil vezes que ele não tinha nada feioso. Mas sou eu que estou contando a história, e digo que ele era um pouquinho feioso sim!) Bem, não nos interessa como eles eram por fora e sim por dentro, e Maraó era muito inteligente, vocês vão ver o quanto; e Ramom, ah! este era sensível como nenhum outro garoto.
(Desde o fundo do palco, os bonecos vêm andando, conversando, passam por trás do narrador que os observa furtivamente – diminuindo o ritmo da narração – e caminham em direção a uma coxia. Eles têm jeitos característicos de andar: Ramom, um tanto desengonçado, movimenta muito os braços; Maraó é firme e delicada, quase “levita”, e mexe várias vezes no cabelo (mas nada deve ser estereotipado). Despedem-se, e Maraó sai de cena. O narrador retoma a narração, enquanto Ramom continua seu caminho, gesticulando e falando sozinho. A mulher acompanha o movimento dos dois com ternura.)
Que bicho foi esse que picou os dois meninos? Porque o amor entre eles não tinha explicação, todo o mundo sabia disso, os parentes, os vizinhos, os professores, os comerciantes, todos se admiravam e se perguntavam como podia haver tanta alegria na união daquelas duas crianças! (Ramom aqui começa a ver que nãosaída, cercado pelo piano e o coro.) Mas a molecada... a molecada da rua, da escola... ah, (a molecada – a parte masculina do coro encurrala o atônito Ramom, conduzindo-o de costas para a frente-esquerda do palco, assustando-o através de uma percussão corporal, incluindo palmas que estalam perto da cara do boneco) esta não perdoava Ramom, pois, é claro, eles morriam de inveja. Escutem a musiquinha marota que inventaram pra encher o saco do menino, quando ele passava:

A molecada (canta o coro e Ramom)

Ramom é um bocó
Porque gosta da Maraó
Ramom é um veado
Porque ele está apaixonado. (bis)

(A mulher se aproxima, preocupada, sem ter o que fazer. Assiste a tudo em .)
Eu não gosto dela assim não
Foi ela que pegou sozinha a minha mão...

Ramom é um bocó
Porque gosta da Maraó
Ramom é um veado
Se que ele está apaixonado...

-- Eu não gosto dela desse jeito
Foi ela que me deu no rosto aquele beijo... 
(Ramom cai no chão, de costas pra plateia.)

Ramom é um bocó
Porque gosta da Maraó
Ramom é um veado
Coitado, está todinho apaixonado.

(Molecada sai correndo. O narrador caminha à frente, de uma ponta a outra do palco, atrás de Ramom que continua sentado, quase imóvel, com movimentos mínimos e introspectivos. A mulher se senta no chão, perto de Ramom, e fica também meio imóvel, enternecida por ele.)
É... a molecada... quando pega no ... Vocês sabem que meninos nessa idade, quando estão sozinhos, são todos simpáticos, bacaninhas, mas quando estão em turma... muitas vezes viram uns chatos de galochas, umas bestas quadradas, uns bocós de mola! – como se dizia no meu tempo... Não admitem que alguém possa ser nem um pouquinho diferente deles; ninguém pode usar óculos, ou ter pinta no rosto ou mancha na pele, ninguém pode gaguejar, ou ter voz fina ou rouca, ou ser bonito demais ou feio demais. E se um menino tropeçar e cair e chorar, vige! E se o garoto for gordo ou baixinho ou narigudo, tá danado, coitadopara os meninos que andam em bando, todo o mundo tem que ser igual, e esse igual é assim ó (anda imitando menino-esperto; mulher ri): metido a espertão, a bonzão. Por isso, vivem atazanando a vida de quem tem um jeito diferente, como faziam com Ramom. porque Ramom era na dele, meio distraído, meio atrapalhado, meio bonzinho, e não falava gíria, não dizia palavrão, mas também, e sobretudo, porque namorava Maraó, não deixavam o menino em paz.
(Ramom começa a se recompor. Aos poucos se levanta, arruma a bermuda, cata o boné no chão. Anda um pouco pra , pra , como se ainda não soubesse o que fazer. Mulher acompanha de braços dados as idas e vindas do narrador.)
Quando eu digo “namorar”, não significa que os dois ficassem se beijando, se abraçando, não; nem tinham idade pra isso. Eles eram, antes de tudo, muito amigos um do outro; gostavam de estar juntos, de fazer as coisas juntos, de brincar, conversar, ter segredos... de vez em quando é que Maraó dava um beijinho nele assim de surpresa (imita Maraó), e Ramom ficava vermelho como um tomate, maior sem graça do mundo... (a mulher ri, ele também).
Mas, voltando ao caso da molecada, Ramom ficou tão assustado com aquela cantoria agressiva, que correu pra casa da Maraó. Precisava falar com Maraó. (Ramom começa a tentar correr, mas não sai do lugar. Começa a canção instrumentalmente.) E como estava afobadíssimo, parecia-lhe que, por mais que corresse (narrador faz gestos de correr simétricos aos de Ramom), a casa dela não chegava nunca, e assim ele ia pelo caminho, louquinho da silva, ora falando consigo mesmo, ora falando sozinho com a própria Maraó.
(A cada três metros que Ramom corre de fato, passa alguns segundos correndo parado, quando então muda a sua direção em 90° – assim perfazendo um desenho geométrico no palco. Participam da coreografia o coro e os manipuladores, que acompanham o movimento ao lado ou atrás, com os mesmos passos e gestos de Ramom. A única que dança solta é a mulher.)

Corre Ramom (canta Ramom)

(Trecho instrumental a cada dois ou quatro versos, para aumentar a música em cena.)

Não, não sei comque começou a confusão
Maraó tem que saber
Não, ela não pode mais pegar na minha mão
Maraó assim não pode ser!

Agora, vou dizer uma coisa pra você
Nãomais pra namorar mais com você
Não é legal... ela não ?
Então:

Não, tão me xingando com nome de palavrão
Ela tem que me entender!

Maraó, tenho uma coisa importante pra dizer
Nãomais pra namorar mais com você
Não é legal... você não ?
Não?

Não, o amor é uma grande confusão
Desse jeito assim não pode ser!

(Todo o conjunto dirigiu-se para o fundo do palco. Narradores, até a altura do piano. Escurece o palco, foco apenas em Maraó recebendo o ofegante Ramom, à esquerda do palco, que gesticula como se contasse tudo o que se passou.)
Ai, ai, ai, ai, ai! como ele chegou aflito, ofegante, nem conseguia falar direito. Mas Maraó... vocês não têm ideia... Maraó parecia um anjo, sabia de tudo, até hoje não sei de onde ela tirava frases tão bonitas. (Conforme Maraó leva Ramom para a direita, o coro os “emolduram” por trás.) E tinha uma voz... uma voz que... dentro da própria voz... havia uma calma, uma segurança, uma... coisa... difícil de explicar! Sua voz era como a varinha de uma fada: era falar, que logo Ramom ficava tranquilinho, tranquilão... (Maraó e Ramom se acomodam de joelhos e começa a canção. Manipuladores tentarão ficar o mais possível fora do foco de luz. Narrador e mulher próximos ao piano, na meia penumbra.)

Conforto de Maraó (canta Maraó)

Ramonzinho, Ramonzão
Não tem medo deles, não.
Até que eles são bacanas
Mas também são uns bananas
Ninguém vai nos separar
Nós brincamos de amar...
Ramonzinho, Ramonzão
Não tem medo deles, não... Tá?

(O casal de narradores embevecidos com Maraó, enquanto a luz lentamente se apaga. Após breve despedida, Maraó se dirige para trás dos coristascomo se entrasse em casa – e sai palco.)
 “Ramonzinho, Ramonzão, não tenha medo deles não...”, parece que ainda estou ouvindo... (Narradores caminham, Ramom segue-os atrás, mas distante) Pronto, Ramom ouviu a voz de Maraó e voltou a ser Ramom. Era sempre assim: quando ela lhe dirigia essas palavras cheias de carinho, ele se sentia tão feliz, mas tão feliz, (começa um samba de roda com pandeiro) que dava um siricutico em sua cabeça, um telecoteco nos seus braços, um balacobaco em suas pernas (descreve sentindo em si o frenesi, antecipando os gestos de Ramom atrás), e então saia pulando, piruetando, flutuando, e sua imaginação criava as coisas mais birutas, engraçadas, trocadas, como se o mundo tivesse sido virado pelo avesso...
(As primeiras loucuras de Ramom são criadas no corpo do próprio boneco; depois, quando a piração aumenta, ele começa a pular cada vez mais alto, a voar, a passar de mão em mão, inclusive por todo o coro. Tudo acontece inicialmente em volta do piano. A mulher se mistura à coreografia, mas dançando sozinha.)

Alegria de Ramom (canta o coro)

O galo mia o gato berra
O vaga-lume liga luz de manhã
O sapo pia a macacada perereca como .

O urubu fica uma arara
A capivara perambula pelo mar
E a tartaruga num poleiro canta como um sabiá.

Tudodoidovirado
O papagaio agora resolveu mamar
O céu desceu pra terra e a terra evaporou-se toda no ar.
(O piano é girado pela primeira vez como parte da loucura e, ao fim da canção, é deixado ao contrário.)

Eu vôo como cotovia
É muito louco sentir pura alegria
E se pintar medo de aranha Maraó vem me salvar.

O amor é estranho, esquisito
De tão bonito o mundo fica infinito
E se morder algum mosquito Maraó vem logo me ajudar.

(Ramom sai discretamente do palco. Mulher, ainda sorrindo pelo que aconteceu e cansada de dançar, senta-se no banco da direita para continuar a ouvir o narrador.)
Esse era Ramom, um menino que sonhava acordado. Mas, pergunto a vocês, como a sua alegria poderia durar? Aliás, como a gente faz para durar uma alegria (mulher sorri, admirada com a questão)? Os problemas logo voltam e, no caso de Ramom, a molecada não iria parar nunca com aquela amolação. Ramom precisava entender alguma coisa, mas não sabia o quê. Ah! como é difícil pensar, como é difícil compreender... O que é que ele fazia afinal de errado? Ele era um cara legal com todo mundo, pô! amigo de todo o mundo, pô! por que pegavam tanto no seu ? Pô!!! Porque gostava da Maraó, é claro, mas por que não podia gostar? (Ramom volta ao palco com novo figurino, pela frente, à direita, pensando junto com o narrador, com seus gestos desengonçados característicos.)
Um dia ele estava andando e pensando essas coisas, e mais uma vez foi surpreendido pela molecada, que tinha planejado outro susto em Ramom. E que susto, meu Deus, que susto!
(O lado feminino do coro, ao fundo, à contraluz, vestido de moleques-meninos, cantam “Ra-mom”, um mantra de duas notas. Ramom estanca, perto da primeira coxia da esquerda do palco, ouvindo apreensivo aquele chamado. De repente, a ala masculina do coro sai da coxia num pulo, um pouco atrás de Ramom, cantando alto a canção. Enorme susto de Ramom. A mulher se levanta neste instante e, sem ocupar o foco da atenção, dirige-se para perto de Ramom. O narrador assiste à cena perto do piano.)

A Molecada II (canta o coro)

Ramom é um bobalhão
Ramom é um trouxalhão
Ramom é um maricão
Ramom é um bundalhão.
 (Ramom se mantém em , olhando para baixo.)

Não é mano como a gente
É um cara diferente
namora e vai pra escola
E não sabe jogar bola.

Fala fino, delicado
É um cara educado
Ele está apaixonado
Ramom é um veado.
(Ramom encara o coro, não como quem desafia, mas como quem não teme.)

Ramom é um bobalhão
Ramom é um trouxalhão
Ramom é um maricão
Ramom é um bundalhão.

 (Ecos do mantra “Ra-mom”. Ramom pensativo, ora olha para o chão, ora para a molecada que continua amolando, mas agora sem tanta firmeza. Luz geral clara.)
Sacanagem, sacanagem! Não é que tivesse medo deles não, o que pegava era a humilhação, aquele tipo de gozação que Ramom não entendia o motivo. Mas dessa vez ele reagiu de outra maneira: encarou a molecada impassível, sem se perturbar com aquela gritaria. (Ramom cruza sem medo o bloco de coro que, um tanto desconcertado, se dispersa “de fininha”.) E saiu andando devagarinho, pensando, matutando uma questão que agora caía como um raio na sua cabeça: afinal de contas, o que era esse negócio de amor? Que coisa era essa chamada amor, razão de tanta inveja, de tanta confusão? (Ramom traça caminhos tortuosos pelo palco, em direção ao fundo. Mulher, na altura do piano, observando ele e o narrador.) Será que seria ficar dando beijos na boca como os adultos? Mas ele não fazia isso com Maraó! Ela havia dito que eles dois “brincavam de amor”. Amor. Amor? – que coisa mais chata é esta? Pois, que ele soubesse, amor era os pais gostarem dos filhos e pronto! Mas também, agora ele recordava, era como sua mãe gostava do seu pai, porque uma vez ela lhe dissera que amava seu pai. Então era isso, amor era simplesmente gostar, como ele gostava de muita gente, dos amigos, primos, de seus pais... Porém..., de fato..., aquilo que sentia pela Maraó não cabia na palavra gostar..., era diferente...
(Palco escurece.) Ramom estava confuso, e seus passos, sem que ele percebesse, caminhavam em direção da casa de Maraó. (Ramom ziguezagueia e se dirige para a frente direita do palco. O coro começa lentamente a empurrar o piano para a esquerda, também à frente.) É isso, ele precisava mais uma vez das palavras que saem da voz de Maraó. Maraó sabia de tudo, tinha explicação pra todas as coisas. (O pianoque estava virado –, é novamente girado e largado num último impulso, fazendo aparecer Maraó sentada na beira da calda. O coro retorna para fundo escuro, onde também o narrador desaparece. Ramom cruza o palco para ir ao encontro de Maraó. Enquanto gesticula contando suas desventuras, sobe no piano e se senta ao lado de Maraó. Ouve-se a voz do narrador:)Maraó, Maraó, afinal de contas, o que é amor??? (Esta frase reverbera com um pouco de eco.)
(Foco somente nos dois. Na penumbra do centro do palco, percebe-se nitidamente a mulher bailando durante toda a canção. Este solo deve ser suave e lindo.)

Tema do amor (canta Maraó) 

Não sei, o amor é tão brilhante
Que às vezes queima a cor dos olhos de quem .
Não sei, o amor é tão distante
Que as pessoas muitas vezes desistem de ter.
Não sei, o amor é evidente
E às vezes a gente não sabe compreender
Não sei, o amor é tão gigante
Que as pessoas diante dele querem se encolher.
(Maraó desce do piano (foco vertical), seguida por Ramom. Lentamente, caminham para a direita, deixando um rastro de focos coloridos e verticais, do mais fraco para o mais forte, conforme ela caminhacomo uma memória. A dança da mulher chama atenção, mas não rouba a cena.)
sei, tem muitos pais da gente
E prefeito e professor
Que não sabem o que é amor.
Ramom, tem gente inteligente
Que nem mesmo uma vez sentiu o seu sabor.
(Maraó canta pra plateia, Ramom senta-se no chão, com as mãos pra trás, para ouvi-la.)
Não sei, o amor é tão chocante
Que às vezes as pessoas correm se esconder
Não sei, o amor é tão bastante
Que às vezes não se sabe um com outro o que fazer.

(Maraó sai no escuro, deixando Ramom sentado alguns instantes, como se ainda a estivesse vendo. Foco rebaixado no narrador, que está estático no meio do palco. A mulher caminha em sua direção e é recebida com um abraço fraterno. O coro, reunido ao fundo, comovido. De repente, o narrador volta a si e caminha à frente, no mesmo instante em que Ramom dá uma cambalhota e se levanta. A luz geral clareia o palco.)
E Ramom saiu pulando mais uma vez, feliz da vida. (Tema de fundo: "Alegria de Ramom".) Tudo tinha ficado claro na cabeça dele.
(Narrador, com a voz alta, gesticula como Ramom, que novamente ziguezagueia pelo palco, inclusive dando uma volta doida no tablado do piano.) Maraó oh, Maraó oh, Maraó oh, agora eu entendi tudo!
É isso mesmo, a grande dúvida de Ramom não existia mais, parecia que ele tinha ficado adulto de uma hora para a outra. E a alegria que sentia agora era tão grande que não cabia dentro de seu corpo miúdo. Sua alegria pulava pra fora, pro ar, se espalhava sobre todas as coisas. É, quando se compreende a fundo tudo aquilo que atormenta a nossa cabeça, o medo, puf, acaba, e a gente quer voar como passarinho. (Narrador acompanha Ramom que está ao fundo, fazendo sutilmente os mesmos gestos. O coro volta o piano ao lugar). O amor, pensava o menino, é um anjo que abraça e que os amantes sentem, as pessoas que olham não conseguem nem ver...! Não. O amor é um doce gostoso que os dois repartem, e dá a maior água na boca dos outros, ah, ah...! Não, não. O amor é uma tinta que pinta colorido o mundo, mas o mundo mesmo continua preto-e-branco, éé...! Não, não, não. Era tudo isso, mas também não era, Ramom entendia, mas não conseguia definir.
Bem, se nem a Maraó sabia direito...
(No fundo do palco, à contraluz, o coro está sentado em círculo, perto do piano, simulando uma reunião familiar.) Foi assim, excitado por essa alegria, que Ramom entrou em casa e correu pra contar pra sua mãe. (Papel desempenhado por uma mulher do coro, que se levanta para dar atenção a ele.)

Ramom conversa com a mãe (canta Ramom e a mãe)

Mamãe, Maraó disse mil coisas de amor
Mamãe a Maraó disse mil coisas de amor.

– Será que ela disse alguma coisa de valor?
Porque é tão difícil definir o que é o amor!

Ela me disse pra tentar nem entender
Porque no amor a gente nunca sabe o que fazer.

Então essa menina é uma menina especial
Porque fala do amor de uma maneira original.

– Disse-me também que não precisa sentir medo
Que o verdadeiro amor é uma espécie de brinquedo.

Então essa menina é genial!
Ramom, sua namorada é sensacional!

(Somente um foco no casal que, rindo, caminham para a frente do palco, de braços dados. Ramom sai para trocar a roupa.) Éee! Também acho Maraó sensacional.
Então agora vocês vão imaginar o tempo passando, passando... (Focos alternados coloridos somente sobre o casal, indicando o tempo passando. Sons de vento. Narrador enumera lentamente:) Imaginem que todos os dias eles iam e voltavam juntos da escola, juntos faziam as lições, almoçavam e dormiam um na casa do outro, brincavam nas ruas, nos quintais, etc. etc. (Vento para.)
(Fundo instrumental. A mulher senta num banco.) Um belo dia nossos dois meninos fizeram um passeio que jamais esqueceriam, num enorme terreno baldio que ficava quase fora da cidade. Eles nunca tinham ido sozinhos, mas argumentaram com seus pais que agora eram grandes, que todos os seus colegas tinham ido... E tanto insistiram que acabaram conseguindo a permissão. O terreno, na realidade, era um campo de futebol abandonado, mas havia muitas árvores (foco de luz colorida sobre uma ou duas “esculturas humanas” orgânicas criadas pelo coromas ainda sem movimento) e um riachinho verdinho que naquela época ainda tinha águas cristalinas... Para os dois, aquele lugar foi uma grande descoberta, tinham a sensação de que ali era nada mais nada menos que o fim do mundo. (O narrador senta ao lado da mulher para assistir.)
(Manipuladores de patins (a ideia é escorregar); ora os bonecos correm para lados diferentes, ora juntos. Percorrem todo o palco ao ritmo da canção. Deparam-se sempre comesculturas humanas” de touceiras, gruta, totem, etc. sempre coloridas pela luz. A mulher, no meio da música, se levanta e dança perto do banco. A certa altura, o piano também é girado, sendo deixado no centro do palco, para a futura cançãoFeitiço”.)

Passeio de Ramom e Maraó (cantam Maraó e Ramom)

– Ramom vem se ver no espelho
– Maraó vem vem ver um átomo
– Ramom olha o escaravelho
– Maraó olha o pau do sândalo.

Olha aqui um chocolate um Cadilac e um leque escarlate.

– Vamos catar gerânio
– Vamos pescar girino.

Olha aqui como agarra na taquara a casca da cigarra.

Agora vou mostrar um truque
Escuta esse batuque.

– Ramom achei um chá cidreira
– Maraó achei um chafariz
– Ramom olha uma caveira
– Maraó, a caveira é uma raiz.

Olha tem adiante um raro diamante radiante.

– Vamos fazer a trilha
– Faz de conta que é uma ilha.

Olha agora o grilo grila cri-cri cria grata gritaria.

– E se eu te desse um beijo?
me deixa assim sem jeito.

(Os dois se estendem no chão, exaustos, ação repetida pelo coro ao fundo, também exausto. A mulher também se senta cansada. Pausa silenciosa, para descansar. Narrador caminha com a mulher lentamente para perto do piano.) Os dois tinham aprontado tanto que ao final estavam suados e imundos. (Cada vez mais escuro. Ramom se levanta.) Ramom disse a Maraó que estava na hora de voltar (Maraó se levanta), mas ela ficou olhando para o chão dois, três, uns dez segundos, quando então pegou a mão de Ramom e o convidou para sentar embaixo de uma árvore (sentam embaixo do piano. A mulher sorridente encontra um lugar perto dos meninos, e se senta também. Palco escuro, luz somente nos dois). , ela se ajoelhou bem na sua frente. Ele logo percebeu que vinha coisa muita séria.

Juramento (canta Maraó e Ramom)

– Ramom vamos fazer um juramento de amor.
– Maraó, qu' é esse tal de juramento de amor?
– A gente cruza os dedos assim...
Então olha a íris do olho do outro...
E diz um para o outro que o amará até o fim
Até depois do casamento, até muito depois.
Até depois que o tempo passar...
Até depois que o mundo inteirinho acabar...
Até muito depois...

(Ambos encostam testa com testa. Aos poucos, tudo vai se apagando até um instante de breu e silêncio – os bonecos e o coro saem pra trocar figurinos. Luz obscura sobre o casal sentado no banco. Ele se levanta e caminha meio triste até o centro do palco. A mulher quase chora discretamente no banco. Narrador, quando toma fôlego para falar, olha para ela, fica surpreso, e diz afetivamente:)
– Está chorando?
Não. (Ela responde dissimulada. Ele parece se preocupar, dá um tempinho, mas continua a narração.)
Pois é, que depois desse passeio o tempo passou apenas mais um pouco. Um pouquinho . Dizem que o tempo anda mas, às vezes, ele desanda... (Som de um trovão.) Porque, logo depois desse passeio, uns três, quatro dias somente, aconteceu... (novo trovão, barulho de chuva ao fundo) Aconteceu o que costuma acontecer... aquilo que parece sempre acontecer nas histórias de amor... (Novamente a mulher balança a cabeça, negativamente, com breve sorriso. Narrador enumera pausadamente, dando medo na plateia.) Era um dia negro..., um dia escuro..., um dia ruim..., no qual até pedra caía do céu (som de tempestade, raios e trovão). Essa parte da história eu não gosto de contar, é difícil..., nem sei como dizer... Que o diga o coro.
(Narrador some no instante que aparece fumaça saindo de dentro e por baixo do piano, em torno do qual o coro com vestimentas tenebrosas faz um ritual macabro, girando em passos coreografados, da esquerda pra direita. Ventanias espalhando fumaça. Luz vermelha (como brasas) sai de dentro do piano, iluminando também os vultos.)

O feitiço (canta o coro)

Asas de morcego cego garras de escorpião
Quem fez feitiço assim no amor dos dois meninos...

Olhos de coruja suja sombras de assombração
Que maldição mais feia para os dois meninos...

– Ó Maraó oh que horror oh ó Maraó oh que horror oh! (bis)
(Ramom irrompe da escuridão a cada estribilho, e desaparece afobado, como o coelho da Alice.)

Penas de galinha preta papo de bicho-papão
Quem pôs agouro vil no amor dos dois meninos...

--Ó Maraó, meu Deus
Que será que aconteceu?
Querem separar você e eu...

Sopa de sapo ensopado cipó e de cação
Quem cortou a raiz do veio do destino...

-- Ó Maraó oh que horror oh ó Maraó oh que horror oh! (bis)

Pinga de jararacuçu com suco de camaleão
Por que que nunca dura para sempre o amor?

(Novo instante de breu. Maraó à frente, na ponta esquerda do palco, preocupada com a imediata chegada, pela direita, de Ramom, que chega com lágrimas nos olhos. Atrás de Maraó, os narradores em , circunspectos, como guardiães daquele destino.)
Ramom chegou na casa de Maraó com a cara molhada de chuva e de choro. Maraó pressentia que alguma coisa grave havia acontecido, mas não perguntava o quê. olhava Ramom. (Pausa. Maraó então caminha até ele.) E Ramom disse pra ela:

Ramom vai embora (canta Ramom)

Oh Maraó vou embora
Meu pai vai embora
Minha mãe vai embora
Eu preciso ir embora

Amanhã vou embora
Meu pai vai embora
Minha mãe vai embora
Eu preciso ir...

Oh, o mundo acabou
Tudo acabou
O tempo acabou, Maraó

Oh, a gente acabou
O amor acabou
Ramom acabou, Maraó

Vou pra bem longe
Nem sei pra onde...

Meu pai arrumou um emprego
Que lhe dará sossego
Diz que não tem mais jeito
O negócio está certo...

Vou embora
Mamãe diz que agora
O mundo é fora
Que eu vou ver, nem demora
Eu me esqueço daqui, e de você...

(Os dois meninos ficam paralisados, olhando um para o outro; narrador hesita e retoma.) É: Ramom ia embora. De repente, sua família ia mudar pra outra cidade. Como alguém pode aceitar que seu amor, de um dia pro outro, vai embora, como? E pensam que Maraó chorou? Chorou sim, chorou muito, que baixinho, pra ninguém ver. (A mulher fica bastante comovida.) Os dois ficaram quietos; ninguém tinha forças para quebrar o silêncio. (Pausa.)
(Quando Ramom se mexe, narrador retoma.) Ramom precisava que Maraó dissesse alguma coisa, o silêncio fazia doer demais o coração. Então, Maraó disse:

Tristeza de Maraó (canta Maraó)

Ramonzinho, adeus, siga agora o seu caminho
Maraó quer ficar
Bem-me-quer
Mal-me-quer
não quero ser instrumento
Nas mãos de um velho escritor
Que inventou o amor, e ignora
O que fazer com esse amor agora...

Ramonzinho, agora não olhe mais pra trás, não
(Ramom vai saindo)
Ramonzão, adeus, não olhe não
(Ramom quer se voltar, então sai. Maraó canta pra plateia, quando então o boneco pisca e chora.)
Não, não olhe não, meu amor...

(Após o último som, tudo escurece a tempo de Maraó sair.)
(Narrador volta a aparecer no centro do palcocomo no começo da peça A mulher caminha para o banco esquerdo.) E foi assim que terminou a história de Ramom e Maraó (pausa).
(Manipuladores depositam os bonecos no banco direito, que caem naturalmente um no ombro do outro.)
De agora em diante, o coro cantará uma longa música que contará pra nós um pouco do que aconteceu com eles, quando cresceram e ficaram adultos. Mas não é uma continuação dessa história, toda história tem um começo, meio e fim, e a nossa terminou. E também, adianto, que não aconteceu nada demais com elesadulto é adulto, vida de adulto não têm muita graça. (Mulher põe a mão na boca e ri do absurdo que o narrador diz. Acendem as luzes, e acompanha-se o movimento natural e “adulto” do coro caminhando desde o fundo até se posicionar à frente, numa formaçãoclássica” de coromas isso não deve desviar a atenção do narrador.)
Eu agradeço a atenção de vocês e me despeço. A música que fale por si e vocês a entendam como quiserem. (Caminha para junto da mulher, ambos dão a mão e se concentram na cena musical.)
(Figurino elegante do coro, para contrastar com tudo o que aconteceu anteriormente. Vento e fumaça.)

Passagem do tempo (coro masculino)

Passa agora passa ontem passa sempre sem parar
Passa rente passa longe passa o enézimo luar
Passa a luz passa o passado passa o redemoinho
Passa o vento passa lento passa como um passarinho.

Passa uma dor passa uma vela passa a saudade de mansinho
Passa uma rua passa uma mula que passa bem devagarinho
Passa febre passa livro passam nuvens pelo ar
Passa ponte passa istmo passa a noite a raiar
Passa um anjo passa um vinho passa a falta de carinho
Passa um sonho passa um sino passa a rosa e o espinho.

(Dividir cada etapa da canção com uma rajada de vento “feliniana”.)
Ramom cresceu (coro masculino)

Passa o tempo dentro de Ramom
Que agora fica sendo
Um homem de talento
Conhecido na região.

Passa o tempo dentro de Ramom
Que agora fica sendo
Um músico de talento
Grande mestre do violão.

Passa o tempo dentro de Ramom
Que continua sendo
Um cara delicado um cara fino
E sempre apaixonado
Por tudo o que há na vida
Pois qualquer coisa da vida
Ele transforma em melodia
Nos acordes do violão.

Uma andorinha uma cachoeira fria
Uma cascavel um pote com favo de mel, pra ele

Vira melodia vira as  notas da harmonia
Vira um carnaval que irrompe
Do fundo de nem saber de onde
E explode em alegria
Nas cores da fantasia
Que pra ele o mundo cabe num pequeno violão...

Mas às vezes Ramom sente
Outra canção ausente
Que nada diz ou diz somente:
(Somente uma voz.) Quem ... quem... quem...

Passar no tempo (canta coro feminino)

Passar com passar a passar no sol pra não chorar
Passar de trem passar também pelo que tiver de passar
Passa boi passa boiada passa tempo na varanda
Passa lendo passa lida passa dentro da ciranda.

Catar feijão com o coração catar cantigas de ninar
Catar a flor catar poesia catar a luz de um olhar
Passa ano passageiro passa o pano da criança
Passa solto passa certo passa o resto de esperança.

Olhar ao léu olhar o belo olhar de longe para o mar
Olhar sereno olhar cinema olhar calendário lunar.

Maraó adulta (canta coro feminino)

Olhem quem é aquela moça de vestido azul
É a nossa Maraó catando o vento nos bambus.

Maraó virou poeta uma artista mais que original
As palavras para ela são coisinhas do seu quintal.

Olhem como ela escuta o canto do uirapuru.
Parece até que adivinha o som que vem do futuro.

Maraó no dia-a-dia passa o dia de papo pro ar.
E escreve na areia pra ver a onda apagar.

Olhem como ela ri dos olhos do murucutu...

A volta do tempo (canta todo o coro)

Por que não deu por que não pode ser a praia e o mar?
Por que não sei por que é que rompe o amor e o amar?
Porquê não tem porquê nãoporque escapa o sentido
Sempre falta sempre um pouco sempre sobra um suspiro.

Por que é sim por que é não por que é in por que é yang?
Por que pra mim por que pro outro o amor é como um bumerangue.

Por que então por que de novo sempre volta o luar?
Por que agora por que revolta foram os dois se encontrar?
Por que depois de tantos anos que acaso ou destino?
Por que é que Deus às vezes zomba de uma história de meninos.

(Ventania, coro no escuro. Surgem dois vultos adultos na contra-luz de um refletor, para não se identificar os rostos de Ramom e Maraó.)
O reencontro (canta um casal do coro)

Oi, Ramom.
– Maraó, que surpresa!
E , como vai você, enh...?
Tudo bem, e você?
Também.. então...
Até mais...

(As luzes se apagam; em seguida, rápida e simultaneamente, apenas um foco nos bonecos, outro no casal abraçado sentado no banco, olhando para o centro do palco, comovidos. Então apaga a luz definitivamente.)


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