Sobre a opereta “Ramom e Maraó”
A
Na montagem produzida pela Palavra Cantada , em 2008, o espetáculo contava com um pianista , um violonista , um coro de oito vozes , um casal de atores , além de dois bonecos (seis manipuladores) representando os dois personagens principais . Abaixo , transcrevo esta versão , excluindo apenas os ricos efeitos de luzes que o vídeo-cenário proporcionava. É claro que são possíveis inúmeras versões , inclusive com atores no lugar de bonecos ou , ao contrário , com todos os personagens bonecos .
As canções da opereta , que são interpretadas ora por Paulo Tatit, ora por Sandra Peres , ora ainda pelo coro , poderão ser ouvidas durante a leitura .
O boneco Ramom.
A boneca Maraó.
O narrador ancião .
A mulher anciã do narrador.
A mãe de Maraó.
Os moleques .
O coro .
Ramom e Maraó: meninos pré-adolescentes. Na versão de 2008, suas vozes foram interpretadas por Paulo Tatit e Sandra Peres .
O casal de terceira idade : a história é narrada apenas pelo homem ; a mulher , que deve ser uma boa bailarina , o acompanha em todas as cenas reagindo e comentando a narração do marido com gestos , danças , olhares e sorrisos .
O coro : narra momentos da peça através de canções , e assume também os papeis dos moleques , da mãe de Maraó e de Ramom e Maraó adultos .
Basicamente, o cenário é formado por um piano de caldas sobre uma plataforma que se movimenta pelo palco , sugerindo diversas configurações (cabana , muro , ponto de encontro ), conforme a necessidade da história . Portanto , o palco é vazio , com o objetivo de não figurar tempo e espaço . Mais importante que objetos datados é a presença da luz , que deve criar ambientes mágicos . Na montagem de 2008, o espetáculo contava com projeções de vídeos coloridos na tela de fundo do palco e numa tela rosco, que ajudaram a criar a atmosfera pretendida. Dois bancos de jardim se posicionam nas laterais do palco , levemente voltados para o interior (não para a plateia), para uso dos narradores nos momentos musicais.
O coro e os músicos vestem figurinos neutros , com exceção dos momentos em que algum componente assume uma personagem , quando então deverá se apresentar a contendo. Ramom se veste como moleque , Maraó como menina vaidosa (sem excessos ). O casal de narradores usa um costume padrão .
Ramom e Maraó
Vou contar pra vocês uma história que eu não sei nem onde nem quando se passou. Mas é isso não nos interessa. Pergunto a vocês : em que século se deu “As mil e uma noites ”? E “Pinóquio”? Ou então : onde fica a Terra do Nunca , de “Peter Pan”? Não sabemos e nem precisamos saber , porque esses enredos são universais , pertencem a todos os povos , a todas as gerações e, portanto , pouco importa identificar exatamente a data e o local do enredo – aquilo que as grandes fábulas nos falam e nos ensinam, qualquer pessoa de qualquer época pode entender . A história que eu quero contar não é tão grande assim , é até pequena , singela , comum , dessas que poderiam se passar na nossa rua , em qualquer cidade , aqui no Brasil, ou na África, ou Europa, tanto faz. Só sei que poderia ter acontecido comigo ou com qualquer um de vocês .
(A mulher aparece sentada no banco lateral , à esquerda .)
Tem mais uma coisa que eu quero comentar com vocês , antes de mais nada ... Este caso ocorreu de verdade , o que vocês verão de agora em diante , neste palco , é tão real como toda a nossa fabulosa realidade , ainda que a minha verdade não seja a mesma de outros que também conhecem a história – como ela , por exemplo (aponta para a mulher , que sorri). Portanto , repito mais uma vez , é importante que , desde já , tenhamos em mente que aquilo que eu vou relatar de fato existiu, tanto quanto vocês e nós existimos nesse teatro ... – as versões de cada um é que são um pouco diferentes ...
(Narração um tanto imponente .) Então , muito bem , muito bom : aqui começa a história dos meninos Ramom e Maraó. (O coro aparece desde o fundo do palco e se posiciona à frente .) Vamos ouvir o que diz o coro : (O narrador se senta ao lado da mulher .)
Ramom e Maraó
Ramom e Maraó
No que deu o amor e a sorte de
Ramom e Maraó
Ramom e Maraó
No que deu o amor e a sorte de
Ramom e Maraó
Ramom e Maraó
Ramom e Maraó
(Narrador perto do público .) “Apenas uma história de amor ...” talvez fosse melhor dizer : apenas outra história de amor , já que as histórias de amor são tão semelhantes ... (Mulher sutilmente balança a cabeça , sorrindo e discordando) É, minha gente , para quem não sabe, o amor é um bichinho de asas que pousa e que pica ... e logo pinica... não , não , melhor seria dizer , o amor é uma brisa fresquinha que aos pouquinhos aumenta , aumenta , vira um furacão e então ... não , isto não ! O amor é uma flecha que fura o nosso coração mas a gente não sente, não dói... só às vezes ... não , não e não ! vamos imaginar ... uma sombra que chega quietinha e gruda no nosso corpo , e de repente cresce, cresce... e nos assombra ! Então você se pergunta : por que aconteceu comigo , por que jus-ta-mente comigo ? É, o amor pegou o menino Ramom e a menina Maraó.
(Desde o fundo do palco , os bonecos vêm andando, conversando, passam por trás do narrador que os observa furtivamente – diminuindo o ritmo da narração – e caminham em direção a uma coxia . Eles têm jeitos característicos de andar : Ramom, um tanto desengonçado , movimenta muito os braços ; Maraó é firme e delicada , quase “levita”, e mexe várias vezes no cabelo (mas nada deve ser estereotipado). Despedem-se, e Maraó sai de cena . O narrador retoma a narração , enquanto Ramom continua seu caminho , gesticulando e falando sozinho . A mulher acompanha o movimento dos dois com ternura .)
A molecada (canta o coro e Ramom)
Ramom é um bocó
Ramom é um veado
(A mulher se aproxima, preocupada, sem ter o que fazer . Assiste a tudo em pé .)
– Eu não gosto dela assim não
Foi só ela que pegou sozinha a minha mão ...
Ramom é um bocó
Ramom é um veado
Se vê que ele está apaixonado...
-- Eu não gosto dela desse jeito
Foi só ela que me deu no rosto aquele beijo ...
(Ramom cai no chão , de costas pra plateia.)
Ramom é um bocó
Ramom é um veado
(Molecada sai correndo. O narrador caminha à frente , de uma ponta a outra do palco , atrás de Ramom que continua sentado, quase imóvel , com movimentos mínimos e introspectivos . A mulher se senta no chão , perto de Ramom, e fica também meio imóvel , enternecida por ele .)
É... a molecada... quando pega no pé ... Vocês sabem que meninos nessa idade , quando estão sozinhos , são todos simpáticos , bacaninhas, mas quando estão em turma ... muitas vezes viram uns chatos de galochas , umas bestas quadradas, uns bocós de mola ! – como se dizia no meu tempo ... Não admitem que alguém possa ser nem um pouquinho diferente deles; ninguém pode usar óculos , ou ter pinta no rosto ou mancha na pele , ninguém pode gaguejar , ou ter voz fina ou rouca , ou ser bonito demais ou feio demais . E se um menino tropeçar e cair e chorar , vige ! E se o garoto for gordo ou baixinho ou narigudo, tá danado , coitado – para os meninos que andam em bando , todo o mundo tem que ser igual , e esse igual é assim ó (anda imitando menino-esperto; mulher ri): metido a espertão, a bonzão. Por isso , vivem atazanando a vida de quem tem um jeito diferente , como faziam com Ramom. Só porque Ramom era na dele, meio distraído , meio atrapalhado, meio bonzinho, e não falava gíria , não dizia palavrão , mas também , e sobretudo , porque namorava Maraó, não deixavam o menino em paz .
(Ramom começa a se recompor . Aos poucos se levanta, arruma a bermuda , cata o boné no chão . Anda um pouco pra lá , pra cá , como se ainda não soubesse o que fazer . Mulher acompanha de braços dados as idas e vindas do narrador.)
(A cada três metros que Ramom corre de fato , passa alguns segundos correndo parado, quando então muda a sua direção em 90° – assim perfazendo um desenho geométrico no palco . Participam da coreografia o coro e os manipuladores, que acompanham o movimento ao lado ou atrás , com os mesmos passos e gestos de Ramom. A única que dança solta é a mulher .)
Corre Ramom (canta Ramom)
(Trecho instrumental a cada dois ou quatro versos , para aumentar a música em cena .)
Maraó tem que saber
Maraó assim não pode ser !
Maraó, tenho uma coisa importante pra dizer
Desse jeito assim não pode ser !
(Todo o conjunto dirigiu-se para o fundo do palco . Narradores, até a altura do piano . Escurece o palco , foco apenas em Maraó recebendo o ofegante Ramom, à esquerda do palco , que gesticula como se contasse tudo o que se passou.)
Ai, ai, ai, ai, ai! como ele chegou aflito , ofegante , nem conseguia falar direito . Mas Maraó... vocês não têm ideia... Maraó parecia um anjo , sabia de tudo , até hoje não sei de onde ela tirava frases tão bonitas. (Conforme Maraó leva Ramom para a direita , o coro os “emolduram” por trás .) E tinha uma voz ... uma voz que ... dentro da própria voz ... havia uma calma , uma segurança , uma... coisa ... difícil de explicar ! Sua voz era como a varinha de uma fada : era só falar , que logo Ramom ficava tranquilinho, tranquilão... (Maraó e Ramom se acomodam de joelhos e começa a canção . Manipuladores tentarão ficar o mais possível fora do foco de luz . Narrador e mulher próximos ao piano , na meia penumbra .)
Ramonzinho, Ramonzão
Ramonzinho, Ramonzão
(O casal de narradores embevecidos com Maraó, enquanto a luz lentamente se apaga. Após breve despedida , Maraó se dirige para trás dos coristas – como se entrasse em casa – e sai palco .)
“Ramonzinho, Ramonzão, não tenha medo deles não ...”, parece que ainda estou ouvindo... (Narradores caminham, Ramom segue-os atrás , mas distante ) Pronto , Ramom ouviu a voz de Maraó e voltou a ser Ramom. Era sempre assim : quando ela lhe dirigia essas palavras cheias de carinho , ele se sentia tão feliz , mas tão feliz , (começa um samba de roda com pandeiro ) que dava um siricutico em sua cabeça , um telecoteco nos seus braços , um balacobaco em suas pernas (descreve sentindo em si o frenesi , antecipando os gestos de Ramom lá atrás ), e então saia pulando, piruetando, flutuando, e sua imaginação criava as coisas mais birutas , engraçadas, trocadas, como se o mundo tivesse sido virado pelo avesso ...
(As primeiras loucuras de Ramom são criadas no corpo do próprio boneco ; depois , quando a piração aumenta , ele começa a pular cada vez mais alto , a voar , a passar de mão em mão , inclusive por todo o coro . Tudo acontece inicialmente em volta do piano . A mulher se mistura à coreografia , mas dançando sozinha .)
O galo mia o gato berra
O vaga-lume liga luz só de manhã
O sapo pia a macacada perereca como rã .
O urubu fica uma arara
A capivara perambula pelo mar
E a tartaruga num poleiro canta como um sabiá .
O papagaio agora resolveu mamar
O céu desceu pra terra e a terra evaporou-se toda no ar .
(O piano é girado pela primeira vez como parte da loucura e, ao fim da canção , é deixado ao contrário .)
É muito louco sentir pura alegria
E se pintar medo de aranha Maraó vem me salvar .
O amor é estranho , esquisito
De tão bonito o mundo fica infinito
E se morder algum mosquito Maraó vem logo me ajudar .
(Ramom sai discretamente do palco . Mulher , ainda sorrindo pelo que aconteceu e cansada de dançar , senta-se no banco da direita para continuar a ouvir o narrador.)
(O lado feminino do coro , ao fundo , à contraluz , vestido de moleques-meninos, cantam “Ra-mom”, um mantra de duas notas . Ramom estanca, perto da primeira coxia da esquerda do palco , ouvindo apreensivo aquele chamado. De repente , a ala masculina do coro sai da coxia num pulo , um pouco atrás de Ramom, cantando alto a canção . Enorme susto de Ramom. A mulher se levanta neste instante e, sem ocupar o foco da atenção , dirige-se para perto de Ramom. O narrador assiste à cena perto do piano .)
A Molecada II (canta o coro )
Ramom é um bobalhão
Ramom é um trouxalhão
Ramom é um maricão
Ramom é um bundalhão.
(Ramom se mantém em pé , olhando para baixo .)
É um cara diferente
E não sabe jogar bola .
É um cara educado
Ramom é um veado .
(Ramom encara o coro , não como quem desafia , mas como quem não teme.)
Ramom é um bobalhão
Ramom é um trouxalhão
Ramom é um maricão
Ramom é um bundalhão.
(Ecos do mantra “Ra-mom”. Ramom pensativo , ora olha para o chão , ora para a molecada que continua amolando, mas agora sem tanta firmeza . Luz geral clara .)
Sacanagem, sacanagem! Não é que tivesse medo deles não , o que pegava era a humilhação , aquele tipo de gozação que Ramom não entendia o motivo . Mas dessa vez ele reagiu de outra maneira : encarou a molecada impassível , sem se perturbar com aquela gritaria . (Ramom cruza sem medo o bloco de coro que , um tanto desconcertado , se dispersa “de fininha”.) E saiu andando devagarinho, pensando, matutando uma questão que agora caía como um raio na sua cabeça : afinal de contas , o que era esse negócio de amor ? Que coisa era essa chamada amor , razão de tanta inveja , de tanta confusão ? (Ramom traça caminhos tortuosos pelo palco , em direção ao fundo . Mulher , na altura do piano , observando ele e o narrador.) Será que seria ficar dando beijos na boca como os adultos ? Mas ele não fazia isso com Maraó! Ela havia dito que eles dois “brincavam de amor ”. Amor . Amor ? – que coisa mais chata é esta? Pois , que ele soubesse, amor era os pais gostarem dos filhos e pronto ! Mas também , agora ele recordava, era como sua mãe gostava do seu pai , porque uma vez ela lhe dissera que amava seu pai . Então era isso , amor era simplesmente gostar , como ele gostava de muita gente , dos amigos , primos , de seus pais ... Porém ..., de fato ..., aquilo que sentia pela Maraó não cabia na palavra gostar ..., era diferente ...
(Palco escurece.) Ramom estava confuso, e seus passos , sem que ele percebesse, já caminhavam em direção da casa de Maraó. (Ramom ziguezagueia e se dirige para a frente direita do palco . O coro começa lentamente a empurrar o piano para a esquerda , também à frente .) É isso , ele precisava mais uma vez das palavras que saem da voz de Maraó. Maraó sabia de tudo , tinha explicação pra todas as coisas . (O piano – que estava virado –, é novamente girado e largado num último impulso , fazendo aparecer Maraó sentada na beira da calda . O coro retorna para fundo escuro , onde também o narrador desaparece. Ramom cruza o palco para ir ao encontro de Maraó. Enquanto gesticula contando suas desventuras , sobe no piano e se senta ao lado de Maraó. Ouve-se a voz do narrador:) – Maraó, Maraó, afinal de contas , o que é amor ??? (Esta frase reverbera com um pouco de eco .)
(Foco somente nos dois . Na penumbra do centro do palco , percebe-se nitidamente a mulher bailando durante toda a canção . Este solo deve ser suave e lindo .)
E às vezes a gente não sabe compreender
(Maraó desce do piano (foco vertical ), seguida por Ramom. Lentamente , caminham para a direita , deixando um rastro de focos coloridos e verticais , do mais fraco para o mais forte , conforme ela caminha – como uma memória . A dança da mulher chama atenção , mas não rouba a cena .)
E prefeito e professor
Ramom, tem gente inteligente
(Maraó canta pra plateia, Ramom senta-se no chão , com as mãos pra trás , para ouvi-la.)
(Maraó sai no escuro , deixando Ramom sentado alguns instantes , como se ainda a estivesse vendo. Foco rebaixado no narrador, que está estático no meio do palco . A mulher caminha em sua direção e é recebida com um abraço fraterno . O coro , reunido ao fundo , comovido. De repente , o narrador volta a si e caminha à frente , no mesmo instante em que Ramom dá uma cambalhota e se levanta. A luz geral clareia o palco .)
E Ramom saiu pulando mais uma vez , feliz da vida . (Tema de fundo : "Alegria de Ramom".) Tudo tinha ficado claro na cabeça dele.
(Narrador, com a voz alta , gesticula como Ramom, que novamente ziguezagueia pelo palco , inclusive dando uma volta doida no tablado do piano .) – Maraó oh , Maraó oh , Maraó oh , agora eu entendi tudo !
É isso mesmo , a grande dúvida de Ramom não existia mais , parecia que ele tinha ficado adulto de uma hora para a outra . E a alegria que sentia agora era tão grande que não cabia dentro de seu corpo miúdo . Sua alegria pulava pra fora , pro ar , se espalhava sobre todas as coisas . É, quando se compreende a fundo tudo aquilo que atormenta a nossa cabeça , o medo , puf, acaba, e a gente quer voar como passarinho . (Narrador acompanha Ramom que está ao fundo , fazendo sutilmente os mesmos gestos . O coro volta o piano ao lugar ). O amor , pensava o menino , é um anjo que abraça e que só os amantes sentem, as pessoas que olham não conseguem nem ver ...! Não . O amor é um doce gostoso que os dois repartem, e dá a maior água na boca dos outros , ah, ah...! Não , não . O amor é uma tinta que pinta colorido o mundo , mas o mundo mesmo continua preto-e-branco, éé...! Não , não , não . Era tudo isso , mas também não era , Ramom entendia, mas não conseguia definir .
– Bem , se nem a Maraó sabia direito ...
(No fundo do palco , à contraluz , o coro está sentado em círculo , perto do piano , simulando uma reunião familiar .) Foi assim , excitado por essa alegria , que Ramom entrou em casa e correu pra contar pra sua mãe . (Papel desempenhado por uma mulher do coro , que se levanta para dar atenção a ele .)
Ramom conversa com a mãe (canta Ramom e a mãe )
– Mamãe , Maraó disse mil coisas de amor
– Será que ela disse alguma coisa de valor ?
– Ela me disse pra tentar nem entender
– Então essa menina é uma menina especial
– Disse-me também que não precisa sentir medo
– Então essa menina é genial !
Ramom, sua namorada é sensacional !
(Somente um foco no casal que , rindo, caminham para a frente do palco , de braços dados . Ramom sai para trocar a roupa .) Éee! Também acho Maraó sensacional .
Então agora vocês vão imaginar o tempo passando, passando... (Focos alternados coloridos somente sobre o casal , indicando o tempo passando. Sons de vento . Narrador enumera lentamente :) Imaginem que todos os dias eles iam e voltavam juntos da escola , juntos faziam as lições , almoçavam e dormiam um na casa do outro , brincavam nas ruas , nos quintais , etc. etc. (Vento para .)
(Fundo instrumental. A mulher senta num banco .) Um belo dia nossos dois meninos fizeram um passeio que jamais esqueceriam, num enorme terreno baldio que ficava quase fora da cidade . Eles nunca tinham ido lá sozinhos , mas argumentaram com seus pais que agora eram grandes , que todos os seus colegas já tinham ido ... E tanto insistiram que acabaram conseguindo a permissão . O terreno , na realidade , era um campo de futebol abandonado, mas lá havia muitas árvores (foco de luz colorida sobre uma ou duas “esculturas humanas” orgânicas criadas pelo coro – mas ainda sem movimento ) e um riachinho verdinho que naquela época ainda tinha águas cristalinas... Para os dois , aquele lugar foi uma grande descoberta , tinham a sensação de que ali era nada mais nada menos que o fim do mundo . (O narrador senta ao lado da mulher para assistir .)
(Manipuladores de patins (a ideia é escorregar ); ora os bonecos correm para lados diferentes , ora juntos . Percorrem todo o palco ao ritmo da canção . Deparam-se sempre com “esculturas humanas” de touceiras , gruta , totem , etc. sempre coloridas pela luz . A mulher , no meio da música , se levanta e dança perto do banco . A certa altura , o piano também é girado, sendo deixado no centro do palco , para a futura canção “Feitiço ”.)
– Ramom vem cá se ver no espelho
– Maraó vem cá vem ver um átomo
– Ramom olha lá o escaravelho
– Maraó olha lá o pau do sândalo .
– Vamos lá catar gerânio
– Vamos lá pescar girino .
– Agora vou mostrar um truque
– Escuta só esse batuque .
– Ramom achei um chá cidreira
– Maraó achei um chafariz
– Ramom olha lá uma caveira
– Maraó, a caveira é uma raiz .
– Vamos lá fazer a trilha
– Faz de conta que é uma ilha .
– E se eu te desse um beijo ?
– Cê me deixa assim sem jeito .
(Os dois se estendem no chão , exaustos , ação repetida pelo coro ao fundo , também exausto . A mulher também se senta cansada. Pausa silenciosa , para descansar . Narrador caminha com a mulher lentamente para perto do piano .) Os dois já tinham aprontado tanto que ao final estavam suados e imundos . (Cada vez mais escuro . Ramom se levanta.) Ramom disse a Maraó que estava na hora de voltar (Maraó se levanta), mas ela ficou olhando para o chão dois , três , uns dez segundos , quando então pegou a mão de Ramom e o convidou para sentar embaixo de uma árvore (sentam embaixo do piano . A mulher sorridente encontra um lugar perto dos meninos , e se senta também . Palco escuro , luz somente nos dois ). Aí , ela se ajoelhou bem na sua frente . Ele logo percebeu que vinha coisa muita séria .
– Ramom vamos fazer um juramento de amor .
– Maraó, qu' é esse tal de juramento de amor ?
– A gente cruza os dedos assim ...
E diz um para o outro que o amará até o fim
(Ambos encostam testa com testa . Aos poucos , tudo vai se apagando até um instante de breu e silêncio – os bonecos e o coro saem pra trocar figurinos . Luz obscura sobre o casal sentado no banco . Ele se levanta e caminha meio triste até o centro do palco . A mulher quase chora discretamente no banco . Narrador, quando toma fôlego para falar , olha para ela , fica surpreso , e diz afetivamente :)
– Está chorando?
– Não . (Ela responde dissimulada. Ele parece se preocupar , dá um tempinho, mas continua a narração .)
(Narrador some no instante que aparece fumaça saindo de dentro e por baixo do piano , em torno do qual o coro com vestimentas tenebrosas faz um ritual macabro , girando em passos coreografados, da esquerda pra direita . Ventanias espalhando fumaça . Luz vermelha (como brasas ) sai de dentro do piano , iluminando também os vultos .)
O feitiço (canta o coro )
– Ó Maraó oh que horror oh ó Maraó oh que horror oh ! (bis)
(Ramom irrompe da escuridão a cada estribilho , e desaparece afobado , como o coelho da Alice.)
--Ó Maraó, meu Deus
Querem separar você e eu ...
-- Ó Maraó oh que horror oh ó Maraó oh que horror oh ! (bis)
(Novo instante de breu . Maraó à frente , na ponta esquerda do palco , preocupada com a imediata chegada , pela direita , de Ramom, que chega com lágrimas nos olhos . Atrás de Maraó, os narradores em pé , circunspectos , como guardiães daquele destino .)
Ramom chegou na casa de Maraó com a cara molhada de chuva e de choro . Maraó pressentia que alguma coisa grave havia acontecido, mas não perguntava o quê . Só olhava Ramom. (Pausa . Maraó então caminha até ele .) E Ramom disse pra ela :
Ramom vai embora (canta Ramom)
O tempo acabou, Maraó
O amor acabou
Ramom acabou, Maraó
Vou pra bem longe
Diz que não tem mais jeito
O negócio está certo ...
Vou embora
O mundo é lá fora
(Os dois meninos ficam paralisados, olhando um para o outro ; narrador hesita e retoma.) É: Ramom ia embora . De repente , sua família ia mudar pra outra cidade . Como alguém pode aceitar que seu amor , de um dia pro outro , vai embora , como ? E pensam que Maraó chorou? Chorou sim , chorou muito , só que baixinho, pra ninguém ver . (A mulher fica bastante comovida.) Os dois ficaram quietos ; ninguém tinha forças para quebrar o silêncio . (Pausa .)
(Quando Ramom se mexe, narrador retoma.) Ramom precisava que Maraó dissesse alguma coisa , o silêncio fazia doer demais o coração . Então , Maraó disse:
Ramonzinho, adeus , siga agora o seu caminho
Maraó só quer ficar só
Mal-me-quer
Nas mãos de um velho escritor
O que fazer com esse amor agora ...
Ramonzinho, agora não olhe mais pra trás , não
(Ramom vai saindo)
Ramonzão, adeus , não olhe não
(Ramom quer se voltar , então sai. Maraó canta pra plateia, quando então o boneco pisca e chora .)
(Após o último som , tudo escurece a tempo de Maraó sair .)
(Narrador volta a aparecer no centro do palco – como no começo da peça A mulher caminha para o banco esquerdo .) E foi assim que terminou a história de Ramom e Maraó (pausa ).
(Manipuladores depositam os bonecos no banco direito , que caem naturalmente um no ombro do outro .)
De agora em diante , o coro cantará uma longa música que contará pra nós um pouco do que aconteceu com eles , quando cresceram e ficaram adultos . Mas não é uma continuação dessa história , toda história tem um começo , meio e fim , e a nossa já terminou. E também , já adianto, que não aconteceu nada demais com eles – adulto é adulto , vida de adulto não têm muita graça . (Mulher põe a mão na boca e ri do absurdo que o narrador diz. Acendem as luzes , e acompanha-se o movimento natural e “adulto ” do coro caminhando desde o fundo até se posicionar à frente , numa formação “clássica ” de coro – mas isso não deve desviar a atenção do narrador.)
(Figurino elegante do coro , para contrastar com tudo o que aconteceu anteriormente . Vento e fumaça .)
(Dividir cada etapa da canção com uma rajada de vento “feliniana”.)
Ramom cresceu (coro masculino )
E sempre apaixonado
Uma andorinha uma cachoeira fria
Uma cascavel um pote com favo de mel , pra ele
Do fundo de nem saber de onde
E explode em alegria
Nas cores da fantasia
(Somente uma voz .) Quem ... quem ... quem ...
Maraó adulta (canta coro feminino )
Olhem lá quem é aquela moça de vestido azul
É a nossa Maraó catando o vento nos bambus .
Maraó virou poeta uma artista mais que original
As palavras para ela são coisinhas do seu quintal .
Olhem lá como ela escuta o canto do uirapuru .
Parece até que adivinha o som que vem do futuro .
Maraó no dia-a-dia passa o dia de papo pro ar .
E escreve na areia só pra ver a onda apagar .
Olhem lá como ela ri dos olhos do murucutu...
A volta do tempo (canta todo o coro )
(Ventania , coro no escuro . Surgem dois vultos adultos na contra-luz de um refletor , para não se identificar os rostos de Ramom e Maraó.)
O reencontro (canta um casal do coro )
– Oi , Ramom.
– Maraó, que surpresa !
E aí , como vai você , enh...?
– Tudo bem , e você ?
– Também .. então ...
– Até mais ...


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